Compreender o que é o bem e o mal segundo a doutrina espírita é fundamental para entendermos nossa própria felicidade e evolução. Allan Kardec dedica-se profundamente a essa temática em duas obras essenciais: O Livro dos Espíritos (na terceira parte, que trata das leis morais) e A Gênese, onde um capítulo específico aborda essa questão.
Os Dois Tipos de Males
Kardec nos apresenta uma distinção importante: existem males que podemos evitar e outros que não dependem de nossa vontade.
Males que Não Podemos Evitar
São aqueles que independem de nossas ações: flagelos naturais, terremotos, tempestades, maremotos e outras catástrofes. Muitas vezes conseguimos prevê-los, mas raramente conseguimos evitá-los completamente.
Para esses males inevitáveis, Kardec nos traz uma reflexão profunda:
“A dor é o aguilhão que impele para frente o homem na senda do progresso.“
Assim como o aguilhão era usado para fazer o carro de boi avançar, a dor nos impulsiona a crescer. Esses desafios nos fazem desenvolver tanto intelectualmente — buscando soluções e superações — quanto moralmente, aperfeiçoando nossas emoções e sentimentos.
Na visão espírita, somos almas em processo evolutivo. O corpo é temporário e todos morreremos, seja por acidente, doença ou velhice. O que realmente importa é aproveitarmos essa experiência de vida para crescer em inteligência e em conduta moral. Vivemos em um planeta de provas e expiações, ambiente adequado para esse desenvolvimento.
Males que Podemos Evitar
Aqui está o ponto mais importante: os males mais numerosos e graves são aqueles que criamos.
Kardec é direto ao afirmar que a maioria dos males provém de nossos vícios, orgulho, egoísmo, ambição, cupidez e excessos. São essas imperfeições morais que geram:
- Guerras e calamidades
- Dissensões e conflitos
- Injustiças e opressões
- A maior parte das enfermidades
A humanidade está em guerra desde sempre, não por necessidade, mas por egoísmo, orgulho e ódio. Problemas que poderíamos evitar se trabalhássemos nosso mundo interior.
A Responsabilidade de Nossas Escolhas
Não é preciso olhar apenas para a sociedade — basta observar o seio das famílias. Quantos problemas decorrem de ciúme, raiva, ódio ou paixões descontroladas? Pessoas que agem sob essas emoções e depois se arrependem.
- O indivíduo com raiva age e se arrepende
- A pessoa ciumenta age e vê as consequências
- O orgulhoso colhe os frutos de sua soberba
- O ambicioso sem limites conquista a qualquer preço e depois paga por isso
A maior parte dos males que sofremos provém exclusivamente de nossas escolhas e decisões. A natureza é generosa conosco, mas temos liberdade para escolher. E é exatamente no uso dessa liberdade que criamos os males que nos assolam.
Consequências Físicas e Espirituais
Mesmo do ponto de vista físico, muitas enfermidades decorrem de nossos excessos: na alimentação, no uso de substâncias, em descuidos diversos. São escolhas que fazem surgir doenças e problemas que poderíamos ter evitado. Nesses casos, só podemos culpar a nós mesmos — não adianta transferir essa responsabilidade para Deus ou para a natureza.
A Lei da Reencarnação
A doutrina espírita nos ensina que alguns problemas que enfrentamos desde o nascimento — como doenças congênitas ou circunstâncias difíceis — são consequências de escolhas e ações de vidas passadas.
Nascer em determinado país, contexto, situação de miséria ou opulência, enfrentar certas limitações… muitas vezes são resultados de condutas anteriores. Mesmo problemas que parecem não ter sido nossa escolha nesta vida podem ser frutos de decisões tomadas em existências anteriores.
Conclusão: Conhecimento de si mesmo
Quando analisamos honestamente a quantidade de problemas que vivemos, precisamos concordar com Allan Kardec: a maior parte decorre de nossas escolhas — no presente ou em vidas anteriores — e das consequências que colhemos dessas ações.
Essa compreensão não deve nos desanimar, mas sim nos despertar para a responsabilidade que temos sobre nossa própria evolução. Se criamos a maioria de nossos males, também temos o poder de evitá-los, trabalhando nosso mundo interior, cultivando virtudes e fazendo escolhas mais conscientes.
A felicidade, portanto, depende muito do bem que realizamos. E compreender profundamente esses conceitos de bem e mal é o primeiro passo para construirmos uma vida melhor, tanto para nós quanto para aqueles que nos cercam.
Para aprofundar-se nessa temática fundamental do Espiritismo, consulte as obras originais de Allan Kardec: “O Livro dos Espíritos” e “A Gênese“. Você pode acessar gratuitamente pela Kardecpedia.